Praia do Cedro – Ubatuba
Eu tinha uma adoração pela cidade de São Paulo digna de torcida organizada de futebol. Quando alguém me dizia qualquer coisa contraria a obvia vantagem de morar aqui, eu me transformava em metralhadora giratória e começava a disparar argumentos: você sabe quantos teatros têm essa cidade? Você já andou pela Paulista à noite? Você tem noção do prazer de ser anônimo e ter um infinito de possibilidades? Caso o sujeito discordasse, eu tentava me concentrar nas convenções sociais e não partir para gritos de guerra obscenos e violência física, mas naquele segundo eu entendia o comportamento dos ogros que lotam estádios com bandeiras da Gaviões da Fiel e companhia. Como alguém poderia considerar um “meio do mato” qualquer mais interessante, fantástico e maravilhoso que essa cidade? Até a violência, o caos expresso nas pichações e as formas cobertas de concreto sem nenhum planejamento me davam a certeza de arte, poesia e beleza. Eu dizia: “Nada é mais bonito que avenidas, multidões e estabelecimentos 24h, quem gosta de Mata Atlântica é macaco”, três ou quatro concordavam comigo.
Mas como o problema em expressar opiniões “extremistas” é depois, quase sempre, ter que dizer que mudou de idéia…pois é, eu ando “me estranhando” com São Paulo. É sorte a cidade não ser uma mulher, não ter voz, nós perderíamos algumas horas com Drs.
O problema não é a cidade, na verdade, mas o ritmo de vida que se leva aqui. Parece uma disputa por quem está mais estressado, e não estar estressado e super ocupado é sinal de que você fez algo errado, fracassou em algum ponto, pois o objetivo é ser produtivo, leia-se trabalhar como um corno. É preciso tentar ganhar o máximo possível de dinheiro, ter tudo o que puder e chamar os amigos pra compartilhar, em encontros rápidos, o poder de consumo que 15h de pensamentos em “negócios” te garantem.
Se não há o poder de consumo, há boas razões pra estar tão ou mais estressado, já que é fundamental ir atrás, desesperadamente, de alguma forma de ganhar dinheiro. Sim, dinheiro é ótimo. Mas será que não dá pra ter uma relação mais tranqüila entre tempo X dinheiro X sucesso X lazer? Será que não dá pra trocar alguns relógios da cidade por painéis com frases bacanas? Será que todo esse anonimato não pode existir sem essa puta sensação de que alguém está te seguindo e talvez te mate? Será?
Não é a cidade. É a vida aqui e na maioria das metrópoles que é assim. As caixas de comprimidos, as bebidas, a valorização do estresse, o pânico e tudo o que precisamos fazer para teoricamente viver em um mundo mais civilizado que o da idade média tornam a vida tão selvagem quanto era naquela época. Será que eu estou completamente louca e essa frase vai parecer grego para os outros?
Eu não tenho a oportunidade de ter uma Dr com São Paulo, se tivesse, não fugiria ao clichê: não é você, sou eu. Não é a cidade, sou eu que não estou me adaptando ao universo.
