São Paulo

November 25, 2009 by Carol

Praia do Cedro – Ubatuba

Eu tinha uma adoração pela cidade de São Paulo digna de torcida organizada de futebol.  Quando alguém me dizia qualquer coisa contraria a obvia vantagem de morar aqui, eu me transformava em metralhadora giratória e começava a disparar argumentos: você sabe quantos teatros têm essa cidade? Você já andou pela Paulista à noite? Você tem noção do prazer de ser anônimo e ter um infinito de possibilidades? Caso o sujeito discordasse, eu tentava me concentrar nas convenções sociais e não partir para gritos de guerra obscenos e violência física, mas naquele segundo eu entendia o comportamento dos ogros que lotam estádios com bandeiras da Gaviões da Fiel e companhia.  Como alguém poderia considerar um “meio do mato” qualquer mais interessante, fantástico e maravilhoso que essa cidade? Até a violência, o caos expresso nas pichações e as formas cobertas de concreto sem nenhum planejamento me davam a certeza de arte, poesia e beleza. Eu dizia: “Nada é mais bonito que avenidas, multidões e estabelecimentos 24h, quem gosta de Mata Atlântica é macaco”, três ou quatro concordavam comigo.

Mas como o problema em expressar opiniões “extremistas” é depois, quase sempre, ter que dizer que mudou de idéia…pois é, eu ando “me estranhando” com São Paulo. É sorte a cidade não ser uma mulher, não ter voz, nós perderíamos algumas horas com Drs.

O problema não é a cidade, na verdade, mas o ritmo de vida que se leva aqui. Parece uma disputa por quem está mais estressado, e não estar estressado e super ocupado é sinal de que você fez algo errado, fracassou em algum ponto, pois o objetivo é ser produtivo, leia-se trabalhar como um corno. É preciso tentar ganhar o máximo possível de dinheiro, ter tudo o que puder e chamar os amigos pra compartilhar, em encontros rápidos, o poder de consumo que 15h de pensamentos em “negócios” te garantem.

Se não há o poder de consumo, há boas razões pra estar tão ou mais estressado, já que é fundamental ir atrás, desesperadamente, de alguma forma de ganhar dinheiro. Sim, dinheiro é ótimo.  Mas será que não dá pra ter uma relação mais tranqüila entre tempo X dinheiro X sucesso X lazer? Será que não dá pra trocar alguns relógios da cidade por painéis com frases bacanas? Será que todo esse anonimato não pode existir sem essa puta sensação de que alguém está te seguindo e talvez te mate? Será?

Não é a cidade. É a vida aqui e na maioria das metrópoles que é assim. As caixas de comprimidos, as bebidas, a valorização do estresse, o pânico e tudo o que precisamos fazer para teoricamente viver em um mundo mais civilizado que o da idade média tornam a vida tão selvagem quanto era naquela época.  Será que eu estou completamente louca e essa frase vai parecer grego para os outros?

Eu não tenho a oportunidade de ter uma Dr com São Paulo, se tivesse, não fugiria ao clichê: não é você, sou eu. Não é a cidade, sou eu que não estou me adaptando ao universo.

Uniban – Antes de dormir, um comentário.

November 9, 2009 by Carol

A atitude dos alunos não me choca, não mais. Pessoas pequenas se sentem grandes em bando. Pessoas com a sexualidade mal resolvida, e / ou sufocada pelos valores morais que fingem que conseguem seguir, tem uma necessidade de agredir qualquer coisa que pareça diferente, ousada, fora do mundinho “eu faço assim pq assim é que dizem que tenho que fazer”.

 Só duas coisas me chocam. A primeira é a quantidade ABSURDA de comentários que relativizam a gravidade dos fatos levando em conta a “provocação” das atitudes da garota vindos de pessoas com quem eu convivo, pessoas que eu considero inteligentes, sempre em um tom de “não que eu queira dizer isso, mas já dizendo…”.  Se ela ficasse nua, de quatro e gemendo, poderia ser presa por atentado violento ao pudor, mas ainda assim NÃO poderia ser ameaçada de estupro. Eu realmente acredito nisso.  É sério.

A segunda coisa que me choca  é a BURRICE de quem decidiu expulsar a guria da faculdade. Se eu sou a assessora e me pedem para, junto ao advogado, redigir um texto justificando a expulsão, meu único comentário seria: isso é pedir pra ser apedrejado, ir à falência, ser processado e sujar o resto da imagem da instituição. É a prova que sempre dá pra fuder mais uma situação. Não é ser bonzinho, ser liberal, ser justo…nada disso. É simplesmente pensar na imagem da empresa. Ninguém reparou que expulsar a menina seria descer o último degrau para o fundo do poço (ok, poço não tem degrau)? Pouco importa se os diretores acham que a menina foi vadia, se ela levantou a saia, rebolou, mostrou a bunda, ou se parece mais simples culpar uma pessoa que milhares.  Ninguém pensou na PUTA repercussão negativa?

Não importa o quanto as leis mudem, a grande maioria, incluindo meus amigos, parentes e colegas, fica um pouco tímido, mas deixa escapar: a culpa é sempre da mulher. Toda vez que há algum abuso, fica no ar a pergunta: o que ela fez pra ser xingada, estuprada, humilhada ou sei lá o quê? Certamente ela provocou de alguma forma, o que transforma qualquer bandido ou demente em uma pobre vítima do sexo feminino.

É assim desde Eva. Não fosse ela, o pobre Adão estaria lá, sem comer porra de maça nenhuma, inocente com sua costela inteira. Não, não é mania de citar a bíblia, eu acredito na maldita e pesada herança histórica que (AINDA) joga mulheres na fogueira. E nesse pedacinho do mundo, bem longe do paraíso, talvez uma instituição não deva mesmo se preocupar com sua imagem ao culpar uma mulher por ser agredida com uma justificativa tão lógica quanto a roupa que usava, é o reflexo do que a torcida do Flamengo acha: a vadia mereceu. Dessa vez, as outras torcidas se juntam ao mesmo coro.

Deus (mais uma vez).

November 5, 2009 by Carol

- Sabe? Eu descobri como funciona esse esquema.

- Ah, é?

- Você já viu aquele planetinha daquele livro do Pequeno Príncipe?

- Sei, acho que me lembro.

O outro faz um gesto com as mãos formando uma esfera no ar.

- é um planetinha, pequeno… Tem uma flor e acho que uma casinha… É assim.

Diz isso projetando a pequena esfera na direção de Júnior.

- Sei, sei…

- É isso, porra! É isso…

- Entendo.

- Entende, nada. Entende ?!

O outro faz um gesto de desprezo que desmancha a esfera.

- Eles botaram a gente aqui.

- Claro…

- Deus botou a gente nesse planetinha do caralho. Do caralho do Pequno Príncipe. Aí ele falou: Meu amigo, tudo isso é seu. Tem ali uma plantinha de merda que dá um fruto gostoso.Ali tem uma vaquinha de bosta que dá leite. E tem trigo pra fazer pão. Até aí tudo bem, não é?

- É tudo o que precisamos…

- É, mas aí ele mostra um buraco na terra. Um buraco feito uma cova.

- Certo…

- Então ele diz: Tudo isso é seu. E ainda vou te mandar uma mulher e umas crianças. .. Isso  eu acho que é só para encher o nosso saco e distrair a gente dessa merda toda. Assim não sacamos o esquema, tá ligado?

- E qual é o esquema?

- Posso continuar?

- Claro.

- Então faz o favor de não ficar me interrompendo. Bom! Aí Deus explica o esquema. Ele diz: Meu filho, tudo isso é seu. A única coisa que você precisa fazer é tapar aquele buraco.  A tal cova que eu te falei.

- Sei.

- Pois então. Cada vez que esse homenzinho tapa a porra do buraco, acaba fazendo outro do mesmo tamanho. Percebe?

- Entendo.

- Então. É isso. É isso sem fim. Tapa um buraco, faz outro igual. Tapa um, faz outro. Até o dia em que o infeliz morre. Só assim você pode tapar o buraco sem fazer outro igual. O buraco é sob medida.

- Legal.

- Porra! Legal, o caralho!

- A história, quis dizer.

- Ou seja, é pau no teu cu. Percebe? É isso. Pra Deus nós somos apenas os que podem tapar o buraco que ele não conseguiu tapar. Entende? É como na obra. Se falta areia, cê não faz parede. Não adianta tijolo, nem cimento. Eu acho que Deus errou nos cálculos. Aí, como já estava de saco cheio, inventou a gente. Tipo umas formigas. Uns formigões, sacou?

A Arte de Produzir Efeito sem Causa – Lourenço Mutarelli.

Temporada das Flores

November 4, 2009 by Carol

Oi,

Como você está?

 Não, não responda. Pelo Orkut, por tudo o que você disse aquele dia, eu já imagino. Tenho pensado em te ligar. Eu estou tão ocupada com meu próprio umbigo, sempre é muito tarde quando eu penso em te ligar. Pois é, dessa vez é literalmente tarde. Eu dormi. Acordei às 4h30. Lembra quando eu te disse que você sabe como está sua vida quando acorda no meio da noite? O que você sente é um indicador importante.

Eu me sinto em uma montanha russa. Tenho um pouco daquela nossa esperança, sabe? Aquela antiga,  embalada por shows, uma “onda” de “ a gente se vira, a vida se resolve”. O resto é peso, o peso de não ter mais 17 anos. Não precisaria ser pesado, mas se tornou. Não só pra mim, pelo que vejo por aí.

Não vou mentir pra você, existe a curiosidade: afinal, o que te aconteceu? Mas não é só por isso que quero te ligar. Tenho um respeito pela nossa amizade de desabafos e risadas em lanchonete. Amizade que surgiu do nada, quando você tocou a campanhinha e eu estava assistindo As Horas.

Eu andava perdida, mas era um perdida com tanta força. Eu chorava muito, mas saía todos os fins de semana, andava com o peito aberto pra novas pessoas, novas viagens. A gente tomava sorvete chorando, às vezes eu, às vezes você, mas compartilhar a imperfeição da vida com colheradas de sobremesa tinha um gosto bom, alívio e esperança. E veio a fase boa, muita coisa boa.

Uma das únicas vezes que eu acreditei em algo “inexplicável”  foi quando você me ligou e perguntou: Carol, você tá bem? E eu senti o chão voltar aos meus pés. Não falo dessa história assim em público, guardei aquilo como um motivo secreto para deixar um pouco de lado meu “ceticismo-pragmático”.

São Paulo é feita de concreto e telas de computadores. Parece que temos que acordar prontos para matar o leão do dia, não raro mais de um, e viver trancados, desconfiados, armados, correndo pra conquistar o emprego, o namoro e alguma coisa utópica, indefinível, correndo pra conquistar qualquer coisa, já nem sabemos bem o quê. É, eu também não entendo o que eu escrevo, mesmo assim me parece fazer sentido depois, espero que faça pra você também. Eu espero que a gente esqueça as distâncias enormes dessa cidade pra conversar por aí, na rua, em Moema, longe das pequenas exposições de dor e / ou afeto em mensagens virtuais.

Não, a vida não é lá muito fácil. Alias, tentar definir a vida é pedir pra cair em mais do mesmo. Não sei o que te aconteceu, mas pelas nossas mensagens aquele dia, eu sei que vou entender.

Quando eu acordo no meio da noite, demoro para domir, isso se dormir. Então eu ligo o computador, escolho uma música. Lembra do Leoni? Não sei se você já ouviu outras músicas dele além da tal Garotos e do Kid Abelha. Me interessei pelo trabalho dele depois de ler  uma entrevista antiga pra  Capricho – sim, a Capricho rs, – ele contava um pouco sobre o período em que teve depressão. Quando melhorou, escreveu Temporada das Flores, pelo menos essa é a história que eu lembro. Na época, fui pesquisar, tem coisas boas. Também gosto de Mais Perguntas que Respostas. Não, não salva a existência na Terra e nem cura todas as dores, mas são duas músicas da   minha seleção de “sons para animar”. Talvez você goste.

Vou te ligar. Eu espero que esteja tudo bem, tudo melhor, em paz.

Saudades!

Carol

Temporada das Flores

Que saudade agora me aguardem,
Chegaram as tardes de sol a pino,
Pelas ruas, flores e amigos,
Me encontram vestindo meu melhor sorriso,
Eu passei um tempo andando no escuro,
Procurando não achar as respostas,
Eu era a causa e a saída de tudo,
E eu cavei como um túnel meu caminho de volta.

Me espera amor que estou chegando,
Depois do inverno a vida em cores,
Me espera amor nossa temporada das flores.

Eu te trago um milhão de presentes,
Que eu achava que já tinha perdido,
Mas estavam na mesma gaveta,
Que o calor das pessoas e o amor pela vida…

Me espera estou chegando com fome,
Preparando o campo e a alma pra as flores,
E quando ouvir alguém falar no meu nome,
Eu te juro que pode acreditar nos rumores.

Me espera amor que estou chegando,
Depois do inverno a vida em cores,
Me espera amor nossa temporada das flores.

Me espera amor que estou chegando,
Depois do inverno é a vida em cores,
Me espera amor nossa temporada das flores.

Me espera amor que estou chegando,
Depois do inverno é a vida em cores,
Espera amor nossa temporada das flores.

Me espera amor que estou chegando,
Depois do inverno é a vida em cores,
Espera amor nossa temporada das flores.

Mais Perguntas que Respostas

A noite entreabre a porta
Pro sol que já vai entrar
E eu tenho mais perguntas que respostas
A vida me surpreende
E o dia vem me lembrar
Que todo dia é tudo diferente
Do sudoeste vem chuva
E um sentimento de paz
De noite a gente se escuta muito mais
O céu invade a varanda
E eu deixo a alma no escuro
E ainda me espanto
Com o quanto eu deixo de notar

O sol escala as encostas
Enquanto eu tomo o café
E eu tenho mais perguntas que respostas
Tem tanta gente no mundo
Vivendo vidas seguras
Será que só eu me sinto tão confuso
Eu encho a alma de sustos
De vaga-lumes e estrelas
E fico feliz por nada ou quase tudo
Me sinto meio antiquado
Pensando tanto em família
Vivendo cercado de poucos bons amigos
Eu acredito em bondade,
Amor e honestidade
E o que me importa
São mais perguntas que respostas
A noite encosta a porta
O sol desperta a cidade
E eu planto mais perguntas que respostas

Sol e sexta

October 30, 2009 by Carol

Sexta-feira. Viajando ou não, tá tudo bem. Dia de matar a saudade =).

“Pára um pouco, descansa um pouco
Relaxa e olha pra mim
E vê se dá pra destravar
Que da minha parte, você sabe
Eu não quero nada além do que você consegue ser
Nem mais, nem menos
Então, vem agora
Meu amor, meu amor
A tua liberdade é tudo que eu quero desfrutar
Minta, inventa qualquer verdade, não importa
Se sinta à vontade pra poder dissimular
E, se por acaso, você ficar com medo
Tudo bem, eu também não tenho nada pra poder me segurar
Não sei não, mas talvez, seja isso
Essa falta seja o aviso
De que a gente não tendo outra escolha, arrange coragem
Pra admitir
Quem ama, não pode
Esperar nada de quem tudo se quer
Quem ama, não pode
Esperar nada de quem tudo se quer
Por isso, conta comigo
Pra qualquer destino
Meu abismo, meu abrigo
Só se vive o que se ama”

E se fosse a sua irmã?

October 30, 2009 by Carol

Manhã de quinta-feira, eu estou sentada em um banco, o ônibus vai para o morumbi, mais um dia de trabalho.

“Ah…eu também. E o Nada é Por Acaso, você leu?”

 ”Nossa,li sim. Realmente,tudo tem uma razão pra ser. Depois que eu li, passei a concordar com a Igreja naquele caso da menina de 12 anos que foi estRupada e engravidou. As pessoas da lei queriam que ela abortasse, mas a Igreja foi contra, nenhuma religião aceita. Eu vi no livro que quando a mãe aborta, o feto vai para o lugar dos rejeitados. Fica lá, alguns sem perna, sem braço, deformados. A gente pensa que o bebê só tem alma quando nasce, mas não, desde que o óvulo encontra o esperma, surge a alma. O espírito tenta vir até a mãe aceitar. Tem caso de bebês rejeitados oito vezes, e ficam lá, cada vez mais deformados, esperando. Nada acontece por acaso, se a menina foi estRupada, é porque tinha que ser, tinha que passar por isso, a criança não tem culpa, o espírito precisa encarnar, as coisas não acontecem ao acaso”

Quase levantei e pedi para o motorista parar o ônibus que eu queria desencarnar. Declaro o começo da campanha “enfie o seu deus no cú”. Seu deus é filha da puta? Você enche o saco de pobres cidadãos inocentes com blá blá blá pseudo-religioso-cruel-nojento? Pegue a porra do seu deus, abra o cu e sente. Ninguém é obrigado a ouvir que a menina tinha que passar pelo estRupo – claro, estupro é outra coisa -, e é obrigada a ter um bebê. Tô sem saco para a liberdade de expressão, se deus existisse e não fosse babaca, um terço da humanidade não teria língua. Jesus, dai-me paciência.

A arte de escrever

October 28, 2009 by Carol

Eu tento gostar de escritores que não sejam deprimidos. Ou finjo que tento. Mas, só pra ser bem clichê, os livros nos escolhem, até podemos escolher pessoas para amar, transar, namorar, ficar, mas escritores favoritos vem ao acaso. No meu caso, por coincidência, logo descubro que o ser é perturbado. Meu novo escritor favorito teve síndrome do pânico, pelo que li, mas não faz diferença.

Vi O Cheiro do Ralo deliciosamente “apertada” em um sofá, ótima companhia, filme e paz, nada melhor. O  filme é perturbador. Melhor ainda.

De um personagem que vive de comprar e vender todo tipo de objetos, instalado em algo que parece um porão e, há dias, cheira a esgoto sem que ninguém consiga resolver o suposto problema no ralo, surge um roteiro FODA.

 A história poderia ter  homens e mulheres amarrados, sendo chicoteados e explicitamente torturados, o sadismo seria menos marcante. Murilo Benício ajuda a dar veracidade a decadência de um ser comum. Nada mais humano que explorar o desespero alheio. “Abaixa a calça”. Sim, sempre há um pouco de fetiche em dominar uma pessoa, ter alguém nas mãos, seja algemado ou com uma necessidade urgente, implorando comida, dinheiro, abrigo ou vindo trocar tudo o que acha por qualquer trocado, como no longa.

Fiquei encantada. Eu costumo começar a gostar de um autor e viciar. Quando assisti o filme, estava muito….ah…não conseguia ler. A concentração era zero. No fim de semana, já conseguindo ler, fui  ver a programação da Mostra de Cinema Internacional de SP, estava lá: Lourenço Mutarelli. Outro filme inspirado em livro dele, chama-se Natimorto. Não importa o filme, só pensei: puts, preciso ler algo dele. E aí, logo abaixo, está meu próximo livro, só falta comprar:

A Arte de Produzir – Efeito sem Causa

Em obra envolvente, Lourenço Mutarelli volta a esmiuçar o lado obscuro da alma humana

Suzana Uchôa Itiberê

O autor de Cheiro do Ralo se concentra agora nos tormentos de um só personagem O HOMEM é um ser patético. Não há redenção para a mediocridade. A classe média está condenada a uma existência angustiada e sem perspectivas. Essa visão pessimista (ou realista) da condição humana ganha contornos grotescos na obra do quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli.

 Se em Cheiro do Ralo o autor promovia um desfile de tipos derrotados, doentes e sofridos, agora, em A Arte de Produzir Efeito sem Causa (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 39,50), ele concentra todos os tormentos em um só personagem, Júnior. Acompanhar sua degradação física e mental é uma experiência perturbadora, porém fascinante. Júnior abandona a família e o emprego por causa de uma dupla traição. Abrigado na casa do pai, ele divide o tempo entre o sofá, o bar e as conversas com Bruna, a inquilina do apartamento e a quem o pai espia por um furo no armário. O enredo lança um mistério, com a chegada pelo correio de pacotes anônimos com estranhos recortes, entre eles uma nota de jornal sobre o episódio em que o escritor William Burroughs matou a mulher.

 É curioso como nem a charada o resgata da apatia, e Júnior entra em uma espiral esquizofrênica. Mutarelli brinda o leitor com um texto preciso, quase gráfico na forma como traduz em palavras a insanidade que consome o protagonista. Um pesadelo bizarro, mas belamente delineado

Existir

October 23, 2009 by Carol

“É um lugar-comum que não há solidão que se compare à de quem se vê sozinho numa multidão; os romancistas o repetem; é inegável que comove; e agora, depois do caso de miss V., eu ao menos passei a dar-lhe crédito. A facilidade com que um tal destino lhe ocorra sugere que realmente é preciso fazer valer seus direitos para impedir que você mesmo seja mantido à parte; como lhe seria possível vir à vida de novo, se o açougueiro, o carteiro e o guarda decidissem ignorá-lo? É um destino terrível; e acho que neste exato momento vou bater de encontrão numa cadeira; o inquilino de baixo agora sabe que, seja como for, eu estou viva.”

O misterioso cado de miss V. ; Contos completos; Virgínia Woolf

À venda

October 13, 2009 by Carol

Eu não tenho tempo para fazer o texto que passou pela minha cabeça. Eu chorei assistindo novela, pois é. Novela!  A irmã da Thais Araujo,que não sei como chama, chorando. A Thais Araújo, que também não sei que personagem interpreta, pergunta: O que eu posso fazer pra te ajudar? Diz, qualquer coisa.

- Nada.

Antes ela sobe uma favela, com o filho no colo, e vai atrás de um cara, típico bandido de novela, que parecia ser o pai da criança. Vai com os olhos de quem procura a salvação, um viajante perdido em um deserto, um viciado em crise de abstinência. Não sei se foi projeção, ou se era proteção, abrigo e paz que a moça procurava.  Retorna com os olhos cheios de medo. E tristeza.

Ela trabalha muito bem ou eu estava muito sensível. Ou os dois. Ela falou de um jeito fatalista sobre sorte, sobre as coisas serem como são, sobre a comparação com a irmã. Como espectadora, eu via claramente o caminho, caso ela fosse mais que um personagem. Pôr as coisas no lugar, acalmar a ansiedade, ter um plano, viver  um dia de cada vez, valorizar o que é bom, respirar. Por dentro da moça, um “turbilhão”.

Eu me vi ali, talvez com menos motivos que a personagem, mas me vi.  Outro dia me disseram que eu sou uma pessoa triste. Não. Eu sou uma pessoa andando em corda bamba.

Meu cérebro “dá pau”, é inacreditável como eu percebo quando os pensamentos começam a rodar. É de repente. Não há nada que alguém possa fazer, não há um salvador. Não deve haver, alias. Há, sim, um conjunto de atitudes, especificas para cada situação, para cada pessoa, que simplesmente ajudam.

Mas personagens ou não, em favelas ou não, com ou sem bebes no colo, a gente sai com os olhos de um viajante perdido, vai buscando ajuda, salvação, ou qualquer alívio. Buscando em comprimidos, pessoas, livros, deuses, puteros. Alguns poucos, e é pra ser assim, oferecem toda e qualquer coisa, e nós não achamos o que pedir, não há o que eles possam fazer. Qual é a coisa que acalma? Qual a resposta para “o que te faria ficar bem”?  Lá vamos nós,  inventar, criar, implorar, rastejar, não saber.

Eu queria olhar de fora, ver com a claridade de um espectador, conversar comigo sem ter que ser eu.  Eu diria apenas: seu cérebro está dando pau.

Procurar ajuda. Andando com a alma à venda. Parece poético ao olhar de fora.

October 11, 2009 by Carol

Direto do tunel do tempo, Antologia. É brega e eu gosto. Alias, a primeira vez que fumei (cigarro mesmo), estava em um show da Shakira. A felicidade era ir ao shopping sozinha, sem os pais, só com amigos, nossa…Confesso, eu ainda gosto da música, ainda acho fofa, a diferença é que hoje sei o quanto é, teoricamente, brega rs. Ah…melhor que essa, só Ojos Asi, mas não dá pra prestar atenção na música, a dança da moça é muito inspiradora rs.  

“Que a pesar de que dicen
Que los años son sabios
Todavía se siente el dolor”